“O TRABALHO DE FORMAR UMA PESSOA É O MAIS IMPORTANTE. NÃO VOU PARAR”

sexta-feira, 17 de abril de 2015


Aos 72 anos, Laís Elena ainda prestará serviço ao basquete e ao esporte. Foto: Andris Bovo

 
Laís Elena, que dirigiu o time de basquete feminino de Santo André por 36 anos e ganhou 11 títulos, seguirá ajudando o esporte

Fim de um cicloEstava sem paciência já. Este é um atributo que você precisa ter em esporte de alto rendimento. Não estava conseguindo ficar sem me irritar, achava que as meninas precisavam ler o jogo com mais facilidade. Quando percebi isso, achei que precisava passar o bastão. Além disso, vi que na supervisão precisávamos de alguém mais próximo para ver as necessidades, cobrar. Nestes 30 anos aqui sempre tive apoio das administrações. Nós somos um patrimônio da cidade. Tivemos grandes gerações que representaram esta camisa.
BasePeço para os pais sempre levarem as crianças para fazer esporte. Quem pratica alguma modalidade sempre vai sair na frente. Muitas crianças se realizaram através do esporte aqui em Santo André. Na hora de competir para entrar em uma faculdade ou entrevista de emprego, sai na frente. Uma menina, a Grazi, outro dia veio assistir nosso jogo e disse que foi fazer uma entrevista na Bolsa de Valores, o entrevistador perguntou se ela tinha feito esportes, ela disse que sim e na hora ganhou o emprego. Esportes são coisas para a vida. O mais importante é deixar o legado para as crianças ganharem lá na frente.
Nova função 
Será uma supervisão técnica de toda a base. Vou estar na quadra, ver de perto a base, dar reforço no time profissional. A Arilza (Couraça, provável nova treinadora) gosta de defesa, eu gosto de ataque, então vamos completar as ideias. O caminho está traçado. Precisamos melhorar só a estrutura, dá para fazer melhor, com um pouco mais de tempo vamos chegar lá. Aproveito para agradecer a Marta Sobral, secretária de Esportes, pelo apoio e por estar sempre nos ouvindo. 
Seleção brasileiraBrito Cunha era presidente da CBB (Confederação Brasileira de Basquete) quando recebi convite para assumir a seleção. Porém, conseguimos um patrocínio novo, da Arcor, em 1999, estava estruturando tudo aqui na cidade. Preteri a seleção ao Santo André para dar força no projeto. O meu papel é aqui. Inclusive ouvi dele que talvez nunca mais fosse chamada. Não me arrependo.
Melhor time O melhor time que comandei foi o da parceria com a Lacta, em 1995. Tinha Carina, Janeth, uma americana campeã olímpica, Wanderleia, era uma seleção. Tive ainda outras estrangeiras sempre contando com o respaldo da iniciativa privada, fizemos grandes times, históricos. Não havia o êxodo de jogadoras brasileiras para a Europa. Agora, estamos caminhando para uma volta desta fase. A Liga deste ano foi boa e a próxima parece ser ainda melhor.
Atletas na seleção A ideia é termos um projeto para clube formador, alguma coisa assim para a base. Estamos em véspera de Olimpíadas e não teremos a qualidade técnica alta. Apesar da mescla, teremos meninas novas e estamos passando por reformulação. Outros países passaram. Quando fomos campeãs (do mundo) na Austrália, estávamos no auge, enquanto as outras seleções passavam por mudanças. Santo André é uma cidade formadora. Demos a Chuca, Vivian, Marta, Leila, Mamá, todas para a Seleção Brasileira, tirando agora a Sassá, Jaqueline, e ainda as da base, casos da Bianca e Rafaela.
LegadoTítulos são importantes. A base precisa depois do competitivo, por ser o espelho, e pra trazer o brio da menina de querer chegar lá. Poucos vão chegar no pico da pirâmide, mas o trabalho de formar uma pessoa com valores e levar para a vida é o mais importante. A formação é o que vence.
Geração A geração da Leila não perdeu nenhuma partida em cinco anos e ganhou tudo, deveria ir para o Guiness. Este trabalho foi da Arilza e ela precisa agora desse respaldo que era o seu trabalho anterior. Em Jundiaí, em Osasco, todos fazem trabalhos fortes. Aqui estamos um pouco defasados quanto à quantidade. Até queria dar ideia para a secretaria de Educação para juntar o esporte com o estudo normal. Santo André tem 80 colégios municipais. São muitas crianças que poderiam fazer esporte, aprender e ainda apresentar grandes talentos. Tenho isso na cabeça e vou passar para o departamento de esporte falar com a Educação.
Idade Hoje tenho 72 anos, mas sempre fui muito ativa. Envelhecer é normal, mas a cabeça você envelhece se quiser. Fico alguns dias de férias e já não aguento ficar parada. Por isso vou continuar trabalhando.
Sucessora A Arilza queria parar com tudo, na verdade. Esse ano foi difícil porque estava em uma função financeira, que ela não gosta. O que ela sempre quis era trabalhar na quadra diretamente, e disse para ela que esse era o momento. Agora, voltando aos treinamentos, ela vai se reencontrar. Estou fazendo a cabeça dela ainda, aos poucos ela vai gostar.
Tristezas Algumas tristezas aconteceram, principalmente quando perdia um patrocínio e ficava difícil de trabalhar. A falta de estrutura também. Ter um elenco forte e não ter transporte, academia, fisioterapia, essas peças. Essas coisas me chateiam. Mas, esta minha parada parece ter dado uma mexida no esporte. Vou estar atenta e dando estrutura, a gente dá retorno e isso é bom para a administração. Vou buscar parcerias para melhorar a infra-estrutura. Eu quase não aceitei o “não” na minha carreira. Se um fala que não pode, eu vou atrás de outro, se preciso, até do prefeito. As pessoas às vezes encaram isso como passar por cima, e não é isso. Vou buscar benefícios sempre.
Saudade O que mais eu tenho saudade são os sete anos que trabalhei na base da Pirelli. Você ver a menina crescer no dia a dia é muito gratificante. Meninas da periferia, bem pobres, e você estar ajudando é algo que não tem preço.
Liga feminina Diminuir o número de estrangeiras é importante. Mais do que duas em cada time, já é muito, como já aconteceu em algumas equipes na Liga deste ano. Vou falar sobre isso na reunião. Quem tem dinheiro monta um grande time e só. Nós precisamos valorizar as atletas brasileiras e dar força para a base.
Futuro do Santo André Tassia, Jaqueline e Sassá vão ser convocadas e sempre sofremos com este problema no elenco. Para esta temporada vamos ter meninas da base e mantivemos, além das três, a Simone, Tatiana e Taissa. A ideia é trazermos duas estrangeiras para fortalecer o time. 

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