Quem passa pelo quilômetro 26,5 da via Anchieta indo ou
voltando do Litoral, na região do Riacho Grande, em São Bernardo, já está
habituado à imagem da represa Billings e da Estação de Tratamento de Água da
Sabesp (Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo). Porém, poucos sabem
que por debaixo daquele mundaréu de água se esconde outro cenário. Pelos olhos
de João Gava, 101 anos, é possível ver o rio com barcos margeado por uma vila
com casas de madeira e estradas para carroças, ouvir o trepidar da água e o
barulho dos animais na mata, principalmente o rugido das onças.
“Costumava viajar de barco e pescar naquele rio. Juntávamos
uma turma e passávamos o dia. Às vezes, comíamos no restaurante do João
Cavinato, que era conhecido como João da Ponte, porque o bar ficava ao lado da
ponte”, recordou Gava. No entorno do rio, onde hoje é a estação da Sabesp,
existia a vila Rio Grande com aproximadamente 150 casas de madeira.
Os moradores tiveram de deixar o local em 1925, quando a
empresa Light desapropriou a área para construção da Billings. “Algumas dessas
pessoas se mudaram para o Centro de São Bernardo ou São Paulo e outras para a
parte alta da vila Rio Grande, que hoje conhecemos como Riacho Grande”, explicou
o memorialista e pesquisador Ademir Médici. Os avós do ambientalista Hermínio
Jerônimo Costa, 70 anos, moravam em uma dessas áreas inundadas com a criação da
represa, no final da avenida Ângelo Demarchi. “Ainda hoje quando a represa está
baixa é possível ver os alicerces da casa”, afirmou.
Uma tal represa - João Gava se lembra quando começaram a
derrubar as árvores e as casas. “Falavam que iam construir uma tal de represa,
mas não sabíamos o que era. Ficamos chateados porque pensávamos que acabaria com
a nossa pesca.” No início, Gava não tinha ideia da dimensão do manancial.
“Minha sogra morava onde hoje chamamos de pós-balsa, íamos para lá a pé. Mas
depois da represa tínhamos de pegar um barco para atravessar. A balsa veio
depois, no começo era um barco”, reforçou.
E não foram apenas os restos das casas e vegetação que a
Billings cobriu. De acordo com o pesquisador Ademir Médici, também na região do
Riacho Grande havia o Cemitério Polaco, da colônia dos poloneses que também
ficou debaixo d’água na década de 1920.
A colônia estabelecida no século 19 em São Bernardo tinha como objetivo
a agricultura para o abastecimento de alimentos de São Paulo.
Ocupação - A partir da criação da represa, João Gava se
lembra de ver cada cantinho da Billings ser ocupado. “Em cada beira da represa
construíam casa. Alguns para morar, outros para o final de semana. A turma
gostava de pescar, andar de barco e tomar banho”, comentou. Para o aposentado,
não foi apenas a ocupação desordenada da represa que levou à poluição do manancial.
“Hoje as pessoas não vêm graça na represa e por isso não valorizam.
Abandonaram”, resumiu.
Manancial secou em 1963
O mundo submerso pelas águas da Billings foi revisto em
1963, quando a represa passou por uma seca devastadora, equivalente ao cenário
desértico que o Sistema Cantareira vive hoje. Os alicerces do restaurante de
João Cavinato, o João da Ponte, vieram à tona, assim como os tijolos das casas
da vila Rio Grande e o Cemitério dos Polacos.
“Foi possível ver também o leito original do rio Grande, que
nasce em Paranapiacaba, (em Santo André). Antes da represa, o rio era a
principal ligação entre São Bernardo e Santo Amaro. A viagem era feita por
barco”, revelou o pesquisador Ademir Médici. A seca foi tanta que a população
implorou aos céus por chuva. “Na época fizeram até romarias para voltar a
chover.”
O aposentado João Gava, 101 anos, também se
recorda da seca e disse que foi até o fundo da represa recolher um toco de ipê.
“Mesmo embaixo d’água por tanto tempo, o ipê não apodrece”, explicou Gava, que
é marceneiro.

0 comentários:
Speak up your mind
Tell us what you're thinking... !