A CIDADE E SEUS DETRITOS COMO ESPELHO DA SOCIEDADE QUE SOMOS

quinta-feira, 26 de março de 2015

Aquilo que é considerado lixo tem muito a dizer sobre uma sociedade e seus vínculos com a cidade.  Relações de utilidade, de troca, de amor, de violência, e até mesmo a falta de relação das pessoas com o meio urbano estão expressas em vídeos, lambe-lambes, e sobretudo fotografias que compõem Fragmentos, exposição de Alan Oju, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo.
As artes vêm denunciando, já há algum tempo, as fragilidades da relação entre o homem a cidade. Diferentemente do homem do campo, o homem urbano integra o ecossistema do caos. Para o autor galês Raymond Williams, por exemplo, a oposição campo e cidade, é algo que se estabeleceu desde a antiguidade; dentre os aspectos positivos, o campo está associado à paz, à simplicidade, mas por outro lado denota imagem de atraso e limitações; a cidade, por sua vez, carrega a ideia de local de realizações e de progresso, no entanto, também é vista como um lugar de agitação, barulho e marcada pela superficialidade de vida. 

No livro O Campo e a Cidade, de Williams, há um relato de 1831 a respeito de Londres, que diz que as pessoas que se estabelecem nas cidades, em cubículos, formam um imenso aglomerado de pequenos sistemas, cada um dos quais, por sua vez, é uma pequena anarquia, cujos membros não trabalham juntos, e sim engalfinham-se. “Como os homens são apressados aqui; como são caçados, perseguidos de modo terrível, impelidos a andar a toda velocidade! Assim, por uma questão de autodefesa, eles não podem parar para olhar uns para os outros!”
Muitos anos depois desse relato, o tema se mostra atemporal e é abraçado por Alan Oju, artista natural de Santo André, na mostra Fragmentos. A capacidade de se colocar no lugar do outro e de se identificar com o ambiente em que se vive fazem parte das reflexões elaboradas por Oju após experiências estéticas vividas pelo idealizador através da fotografia, e também de experiências subversivas, ao simplesmente romper o padrão de comportamento que se espera de alguém que “anda pela cidade”. “O que está sendo exposto na Oswald é uma maneira de compartilhar a sensibilidade que tive acesso ao me deixar ser atravessado pela cidade”, contou Oju.
Fragmentos é resultado de uma residência artística realizada na Oficina Cultural Oswald de Andrade através do Programa Mergulho Artístico: Bolsas de Investigação. “O objeto de pesquisa é um desdobramento de meu trabalho anterior: Janelas, que também foi criado dentro de um ambiente de residencia artística, no MIS (Museu da Imagem do Som)”, explicou Oju. “Em ambos busco discutir a cidade, as experiências negadas pela dinâmica contemporânea, coisas óbvias,  mas que nos tempos atuais é necessário inverter a lógica da vida para refletir sobre elas”, afirmou.
Fotografia e descartáveis viram matéria-primaAs obras são compostas por elementos diversos, como objetos encontrados na rua, mas a fotografia é o principal recurso para compartilhar sensações. “Os carros chefes da exposição são os objetos que encontrava pela rua, eles foram transformados em suportes/midia para as imagens. Coloquei imagens nos objetos: de paisagens, pessoas, conforme eu caminhava recolhia objetos dos lugares fotografados, depois, no laboratório fotográfico, eu colocava a paisagem do lugar onde o objeto foi encontrado no próprio objeto, assim invertendo: o objeto que estava no lugar agora passa a carregar o lugar em si. ”EmFragmentos há uma nova versão do Homem Vitruviano, obra de Leonardo Da Vinci, datada em 1490 aproximadamente, que chama a atenção para a necessidade da arquitetura e do urbanismo voltarem a agir a serviço de quem ocupa a cidade. “Tentei contemporizar o que entendo sobre a obra do Renascimento, num momento em que o homem passava a ser o centro e não mais a religião. Escolhi este trabalho pois acredito que assim como naquela época o homem era negado em detrimento do pensamento teológico cristão.” 
Olhar organizado sobre a desorganização
Olhares sobre a cidade - Exposição Fragmentos, de Alan Oju. Em cartaz até 09/05 na Oficina Cultural Oswald de Andrade (rua Três Rios, 363, Bom Retiro, São Paulo). Entrada gratuita. Informações: 3221-5558. Para conhecer o trabalho de Alan Oju acesse: www.oju.com.br. 
Share this article :

0 comentários:

Speak up your mind

Tell us what you're thinking... !

 
Support : Creating Website | Johny Template | Mas Template
Copyright © 2011. TV e Jornal Impacto Total - All Rights Reserved
Template Created by Creating Website Inspired by Sportapolis Shape5.com
Proudly powered by Blogger