Em 9 de setembro de 2014 André Silvério, que atende por Isografia, cruzou o portão de sua casa em São Bernardo com um mochilão nas costas. Essa seria apenas a primeira das muitas fronteiras que o artista audiovisual transpassaria nos próximos três meses de sua vida. Levando duas câmeras fotográficas, celular, computador, uma muda de roupas e alguns itens para casos de emergência como papel higiênico, Isografia partiu para Belém do Pará.
Depois de Belém veio Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Uruguai, Argentina e regiões do norte brasileiro. A andança rendeu milhares de fotografias e dezenas delas estarão na exposição Caminhos do Sul, que será aberta domingo (22/02) no Gambalaia Espaço de Artes, em Santo André. Mas não só isso, três meses na estrada proporcionaram variadas sensações, novos sabores, novas amizades, aprendizados e outras coisas que não se mensura, mas que fotografias podem retratar.
A princípio a ideia era viajar um mês, mas, por mais que se tenha um roteiro preestabelecido, manter-se flexível é uma boa maneira de explorar os lugares com que mais se identifica. Já no primeiro destino, em Belém, um imprevisto que prolongou a estada em um dia, fez com que o fotógrafo testemunhasse o Carimbó ser reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
De lá foi para a improvável Suriname e se deparou com uma miscelânea cultural. “É um lugar muito curioso, uma fusão de África, Ásia e Oceania. O povo fala holandês, mas é uma mistura com outros idiomas como espanhol e francês, e a arquitetura tem influências holandesas”, relatou Isografia sobre suas impressões. “Não é tão vibrante quanto outros lugares da América Latina”, completou.
Nosso Sangue LatinoFoi na Guiana que um projeto especial começou: entrevistas gravadas em vídeo. “Acima das paisagens, arquitetura e aspectos culturais, as histórias de vida das pessoas é que são o verdadeiro patrimônio do lugar.” Com esse intuito de se aproximar da realidade das pessoas o artista conheceu um muçulmano que vendia perfumes (e trocou uma fotografia por um frasco); um taxista rastafari; um relojoeiro; e um casal que era cunhado e se uniu depois que os dois ficaram viúvos. “Ele nunca imaginou que a vida pudesse ser tão doce”, disse a moça.
Para ele, as viagens permitem que reconheçamos no outro a humanidade que a vida cotidiana impregnada de rotina não deixa. “Foram tantos encontros preciosos que fico em dúvida se foram mesmo obra do acaso ou de uma energia superior, como o destino.”
Em Georgetown, litoral da Guiana, experimentou pela primeira vez a insegurança durante a viagem. “Era um caldeirão de culturas muito pulsante, sinistro. Um clima tenso, não houve muita interação com as pessoas.” Em compensação encontrou um casal de alemães e foram juntos para os próximos destinos.
O bernadense foi para Bonfim, em Roraima, e fez uma caminhada de seis dias pelo Monte Roraima. “Foi uma das experiências mais interessantes da minha vida, há muito tempo para pensar, é um exercício de autoconhecimento e superação”, contou. A próxima parada, Boa Vista, foi uma das cidades mais generosas com o “viajero”. “Fiquei bem mais do que planejei e o tempo lá rendeu entrevistas e poesias”, relatou.
Dali seguiu para a Venezuela, onde passaria dois meses, de coração aberto. Lá pode observar (e fotografar) heterogêneas paisagens: o mar do Caribe, Andes, pântanos, desertos e Floresta Amazônica. A impressão sobre as pessoas é que não eram tão abertas apesar de se considerarem “felizes”. A coisa mudava um pouco quando dizia que era brasileiro: “somos sempre muito bem vistos e recebidos.”
Com tantos quilômetros e ponteiros rodados, é possível pensar numa unicidade da América Latina? “Existe uma cumplicidade de 3º mundo. Somos todos explorados e há algo de solidário entre nós por isso. Em comum está o fato de tocarmos a vida sorrindo, mesmo diante das dificuldades.”
Depois da Venezuela ainda esteve na Colômbia, Argentina e Uruguai, de onde, na volta, recebeu o convite da curadora Mariana Lucio para compor a exposição Caminhos do Sul. “As fotos foram escolhidas com a proposta de instigar as pessoas a viajarem. O mundo está aí fora cheio de transformações para absorvermos. Quero com as imagens sugerir, também, que é possível viver de maneira simples.”
Um convite à viagem Abertura de exposição Caminhos do Sul, de Isografia. Domingo (22/02), a partir das 17h, no Espaço Gambalaia (rua das Monções , 1018, Jardim, Santo André). Entrada gratuita.

0 comentários:
Speak up your mind
Tell us what you're thinking... !