Nascido em São Bernardo do Campo - SP, casado, funcionário público municipal, escritor e poeta. Começou a escrever jovem ainda, porém, só atreveu-se a sair do anonimato no início de 2001 quando adentrou as veredas da poesia chegando aos contos e crônicas. Seus escritos abrangem desde o social ao amor, sempre sob a ótica da cidadania consciente e do poeta romântico que é. Luís Carlos retrata as prisões d'alma com propriedade. E, entende que, todo texto, tendo cunho social ou não, é formador e transformador de opinião e resgata valores morais, éticos e sociais. Dentro de um mundo racional, capitalista e competitivo, os textos podem também resgatar a essência do amor.Luís Carlos Mordegane é membro da União Brasileira dos Escritores e do Movimento Poético Nacional.
É autor de três livros impressos: Eu, Um Velho Menino; A Casa do Fim da Rua e A Magia Dos Rondeis de Um Velho Menino.
Participou ainda de diversas antologias. Participa também de vários sites e blogs na internet.
E a luta continua...
Manhã de domingo, 7 horas.
Sérgio acorda, sente um gosto ruim na boca. Pensa que talvez fosse ressaca do sábado. Mas como? Se ele nem bebera! Resmunga para si mesmo.
Sérgio é funcionário de uma grande Montadora da Região do Grande ABC em São Paulo cujos funcionários estão em estado de greve por melhores condições de trabalho e aumento de salário.
Já estão a muitos dias parados. É a maior greve de todos os tempos, deflagrada pelo sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
E ele, sem dinheiro. Está sem receber seu salário desde abril, mês que iniciou a paralisação. E já corre solto o mês de maio.
Levanta com o cabelo desalinhado, cara de uma noite mal dormida. Olha para o relógio ainda sonolento e nem consegue ver os ponteiros do despertador direito. Caminha até a cozinha, desanimado, abre o armário mais uma vez e olha as prateleiras vazias, isso já sabia. Chacoalha o bule de café sobre a mesa, vazio... Volta para o quarto, olha a mulher dormindo, os filhos já acordados com cara de fome e fica desesperado com o agravo da situação em que se encontra.
É domingo. Pega uma sacola de pano e sai a pé em direção ao centro da cidade. Seu objetivo, a Igreja Matriz, tentaria obter o auxilio de uma cesta básica.
Caminha cabisbaixo, pensativo...
Agradecia a Deus que a pastoral da Igreja estava ajudando os grevistas e suas famílias com cestas básicas e de alguns remédios recebidos em doação e do fundo de greve do sindicato.
Logo que começara a descer a escadaria do prédio que morava encontrou com o Carlos e seu filho Hamilton, funcionários da Volkswagen de São Bernardo do Campo, que iam para a assembléia marcada para as 10 horas no Estádio 1º de Maio, na vila Euclides, onde seriam decididos alguns tópicos das negociações.
Sérgio avisa aos amigos que vai primeiro até a Igreja tentar receber uma cesta básica pois, já não têm mais nada na dispensa de sua casa e logo depois irá ao encontro deles no Estádio.
Os amigos fazem o percurso juntos por uma boa parte do caminho, todos mudos. Cada qual perdido com seus pensamentos.
Chegando no centro da cidade eles tomam seus rumos.
Para surpresa de Sérgio tem um enorme aglomerado de gente, mulheres e crianças se misturam com a multidão na frente da praça da Matriz. Todos conversam em voz alta. Que estranho, a assembléia não era na vila Euclides, pensa ele, ao notar que nem as mulheres com seus filhos estão formando a fila na lateral do salão Paroquial para receberem as cestas.
Aproxima-se da primeira pessoa que encontra pergunta o que está acontecendo e recebe como resposta que a policia esta bloqueando a passagem para o salão.
Nesse momento, vários camburões e brucutus invadem a área central da cidade onde fica a Praça. Alguns dos lideres sindicais que se encontram presentes, começam a gritar palavras de ordem, formando com os correligionários um cordão que aos poucos se dissolve, as custas de bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Todos tentam proteger as mulheres e crianças, colocando-as dentro da igreja.
Muitos grevistas, neste dia, apanham da policia. São acuados, entrincheirados, até que consigam chegar ao interior da Igreja.
Sergio só pensa em sua família. sem comida, sem leite, sem pão, sem nada! E, nesse desespero, destemidamente não correu para dentro da igreja como outros fizeram. E grita que trabalhador não é bandido...
Aquilo é considerado um acinte pelos policias que o perseguem e o pegam e passam a golpeá-lo várias vezes e depois o jogam dentro de um camburão.
10 horas, 11 horas, meio dia... meia noite... e a esposa de Sérgio desesperada e sem noticias do marido...
Procurara por ele na casa dos parentes e amigos, nada. Depois, todos preocupados com a falta de notícias e desaparecimento, empreendem buscas em hospitais, pronto-socorros, delegacias, IML.
E nada. As horas passam, e a aflição e o medo só aumentam...
Os parentes de Sérgio socorrem sua família dando-lhe também o que comer além do apoio moral.
No dia seguinte pedem apoio ao sindicato. Este informa terem sido presos vários trabalhadores naquele dia na Praça da Matriz. Mas também, que, estão fazendo o possível para saber o paradeiro desses companheiros de luta.
Desalentada, Ruth e a família voltam para casa. Rezam para encontrar Sérgio já em casa. Ledo engano.
A noite chega e a ausência de Sérgio é cobrada pelas crianças que não entendem o por que de não ter seu pai ali, naquele momento.
Em um canto, Ruth chora desesperadamente. Um pranto de dor e de medo. Uma angústia, um pressentimento, que a razão não aceita...
Quando ouve barulho no corredor do prédio, ela pula do lugar em que está e corre para abrir a porta, totalmente descontrolada.
A sua frente vê Sérgio. Cambaleante, todo sujo de sangue misturado com poeira. Um forte cheiro de urina invade o apartamento. O corredor fica apinhado de vizinhos querendo saber o que houvera.
Ruth, chorando copiosamente, abraça o corpo do marido, beija seu rosto machucado e ensangüentado, acaricia os ferimentos, olha em seus olhos, nada pergunta...
E abraçada a ele o conduz para dentro de casa.
E fecha a porta.
E lá fora, todos se entreolham com o medo e apreensão .....
Luis Carlos Mordegane
Sérgio acorda, sente um gosto ruim na boca. Pensa que talvez fosse ressaca do sábado. Mas como? Se ele nem bebera! Resmunga para si mesmo.
Sérgio é funcionário de uma grande Montadora da Região do Grande ABC em São Paulo cujos funcionários estão em estado de greve por melhores condições de trabalho e aumento de salário.
Já estão a muitos dias parados. É a maior greve de todos os tempos, deflagrada pelo sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
E ele, sem dinheiro. Está sem receber seu salário desde abril, mês que iniciou a paralisação. E já corre solto o mês de maio.
Levanta com o cabelo desalinhado, cara de uma noite mal dormida. Olha para o relógio ainda sonolento e nem consegue ver os ponteiros do despertador direito. Caminha até a cozinha, desanimado, abre o armário mais uma vez e olha as prateleiras vazias, isso já sabia. Chacoalha o bule de café sobre a mesa, vazio... Volta para o quarto, olha a mulher dormindo, os filhos já acordados com cara de fome e fica desesperado com o agravo da situação em que se encontra.
É domingo. Pega uma sacola de pano e sai a pé em direção ao centro da cidade. Seu objetivo, a Igreja Matriz, tentaria obter o auxilio de uma cesta básica.
Caminha cabisbaixo, pensativo...
Agradecia a Deus que a pastoral da Igreja estava ajudando os grevistas e suas famílias com cestas básicas e de alguns remédios recebidos em doação e do fundo de greve do sindicato.
Logo que começara a descer a escadaria do prédio que morava encontrou com o Carlos e seu filho Hamilton, funcionários da Volkswagen de São Bernardo do Campo, que iam para a assembléia marcada para as 10 horas no Estádio 1º de Maio, na vila Euclides, onde seriam decididos alguns tópicos das negociações.
Sérgio avisa aos amigos que vai primeiro até a Igreja tentar receber uma cesta básica pois, já não têm mais nada na dispensa de sua casa e logo depois irá ao encontro deles no Estádio.
Os amigos fazem o percurso juntos por uma boa parte do caminho, todos mudos. Cada qual perdido com seus pensamentos.
Chegando no centro da cidade eles tomam seus rumos.
Para surpresa de Sérgio tem um enorme aglomerado de gente, mulheres e crianças se misturam com a multidão na frente da praça da Matriz. Todos conversam em voz alta. Que estranho, a assembléia não era na vila Euclides, pensa ele, ao notar que nem as mulheres com seus filhos estão formando a fila na lateral do salão Paroquial para receberem as cestas.
Aproxima-se da primeira pessoa que encontra pergunta o que está acontecendo e recebe como resposta que a policia esta bloqueando a passagem para o salão.
Nesse momento, vários camburões e brucutus invadem a área central da cidade onde fica a Praça. Alguns dos lideres sindicais que se encontram presentes, começam a gritar palavras de ordem, formando com os correligionários um cordão que aos poucos se dissolve, as custas de bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Todos tentam proteger as mulheres e crianças, colocando-as dentro da igreja.
Muitos grevistas, neste dia, apanham da policia. São acuados, entrincheirados, até que consigam chegar ao interior da Igreja.
Sergio só pensa em sua família. sem comida, sem leite, sem pão, sem nada! E, nesse desespero, destemidamente não correu para dentro da igreja como outros fizeram. E grita que trabalhador não é bandido...
Aquilo é considerado um acinte pelos policias que o perseguem e o pegam e passam a golpeá-lo várias vezes e depois o jogam dentro de um camburão.
10 horas, 11 horas, meio dia... meia noite... e a esposa de Sérgio desesperada e sem noticias do marido...
Procurara por ele na casa dos parentes e amigos, nada. Depois, todos preocupados com a falta de notícias e desaparecimento, empreendem buscas em hospitais, pronto-socorros, delegacias, IML.
E nada. As horas passam, e a aflição e o medo só aumentam...
Os parentes de Sérgio socorrem sua família dando-lhe também o que comer além do apoio moral.
No dia seguinte pedem apoio ao sindicato. Este informa terem sido presos vários trabalhadores naquele dia na Praça da Matriz. Mas também, que, estão fazendo o possível para saber o paradeiro desses companheiros de luta.
Desalentada, Ruth e a família voltam para casa. Rezam para encontrar Sérgio já em casa. Ledo engano.
A noite chega e a ausência de Sérgio é cobrada pelas crianças que não entendem o por que de não ter seu pai ali, naquele momento.
Em um canto, Ruth chora desesperadamente. Um pranto de dor e de medo. Uma angústia, um pressentimento, que a razão não aceita...
Quando ouve barulho no corredor do prédio, ela pula do lugar em que está e corre para abrir a porta, totalmente descontrolada.
A sua frente vê Sérgio. Cambaleante, todo sujo de sangue misturado com poeira. Um forte cheiro de urina invade o apartamento. O corredor fica apinhado de vizinhos querendo saber o que houvera.
Ruth, chorando copiosamente, abraça o corpo do marido, beija seu rosto machucado e ensangüentado, acaricia os ferimentos, olha em seus olhos, nada pergunta...
E abraçada a ele o conduz para dentro de casa.
E fecha a porta.
E lá fora, todos se entreolham com o medo e apreensão .....
Luis Carlos Mordegane
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